A Força do Design – Mario Fioretti

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A FORÇA DO DESIGN

Cena 1: Uma mulher entra numa padaria no fim da tarde, hora de maior movimento do estabelecimento. Apesar de cheia, ela é rapidamente atendida por um funcionário bem treinado. Envolvida pelo delicioso cheiro de pão recém assado, ela pode ainda degustar alguma coisa gostosa, animando-a a comprar um pouco mais que o planejado. Em alguns minutos, após passar por um check-out eficiente, ela sai da loja satisfeita.

Cena 2: Uma moça acaba de comprar um celular. Ao abrir uma linda caixa transparente, retira os acessórios cuidadosamente embalados. Pega o aparelho e passa as mãos por sua superfície lisa e sem imperfeições, suavemente monolítica. Ao ligá-lo, o encantamento se transfere para um ambiente iluminado, colorido, que mostra uma interface amigável e convidativa. Ela tem a certeza de ter escolhido a marca certa.

Cena 3: Um rapaz se aproxima de seu carro, olhando diretamente nos faróis brilhantes e bem desenhados, que lembram os olhos de um felino. Passa a mão pela carroceria de aço com linhas fluidas, que o faz parecer estar a 200km/h mesmo parado. Senta-se ao volante e observa os instrumentos, gráficos e iluminados como o painel de um jato. Ele vestiu o automóvel como se veste uma jaqueta, e agora está pronto para sair.

O que há em comum entre essas três pessoas é que todas foram impactadas pelo design. Longe de ser aquela disciplina que existia para cobrir os objetos com uma aparência mais bonitinha, o design transcendeu muito suas fronteiras. Service Design, no caso da padaria, que projeta um fluxo inteligente pela loja, num ambiente agradável, convidativo e mais rentável. Experience Design quando falamos do celular, em que a moça está vivendo uma experiência de relação com a marca em todas as suas dimensões — emocionais e práticas. E Product Design ao falarmos do automóvel, compreendendo a importância de se conhecer todos os motivos que levaram o rapaz a comprar aquele veículo, e não apenas um meio de transporte, através de seus símbolos e significados. Todas são variações de um mesmo conceito – design – que é a capacidade de entender um problema ou oportunidade, buscar alternativas inovadoras e coerentes com os atores envolvidos (usuário, prestador do serviço, manufatura, vendas), testar o conceito escolhido e aplicar na prática.

Apesar de eu apresentar o processo de desenvolvimento de design de uma forma linear no parágrafo anterior, ele está longe disso. Especialmente porque entender um problema ou prospectar uma oportunidade, que é o que o design faz realmente, não é nada linear. Um bom designer não impõe uma solução, ele a cria juntamente com o usuário. E para isso, é necessário muito acompanhamento, diálogo, observação e raciocínio. Um bom trabalho de design transmite uma mensagem de forma subliminar, subjetiva, direcionada aos valores do usuário que foram identificados no período de observação e, se bem executada, reconhecida imediatamente por ele. É por isso que muitas vezes um objeto nos atraí tanto, nos apegamos a uma marca ou reverenciamos certos serviços oferecidos por uma empresa ou entidade.

Apesar de ser tão centrado no ser humano, esse desenvolvimento deve ser sistêmico, planejado, com resultados mensuráveis e previsíveis através dos inúmeros mecanismos de pesquisa disponíveis hoje. Apesar de ainda ser uma disciplina muito associada à beleza, ele é cada vez mais ligado à inteligência de negócios. Empresas que descobriram seu potencial usufruem de resultados diferenciados e de alta performance. Abordo isso em meu livro Design Encanta, Inovação Surpreende lançado recentemente pela Alta Books Editora, onde demonstro que investir em design pode trazer resultados melhores e mais rápidos do que investir em alta tecnologia.

Artigo publicado em 29 de julho de 2015 pelo Projeto Draft adaptado pelo autor para o DIALŏGUS.

 

 

Sócio da caleidoscópio I DIP.

Professor e membro do board – EISE.

Autor de “Design Encantada, Inovação Surpreende”.