Análise do Discurso como ferramenta para o conhecimento da opinião pública – Patrícia Corado

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Análise do Discurso como ferramenta para o conhecimento da opinião pública.

Fenômeno de formação complexa e multifacetada, a opinião pública impõe àqueles que a desejam conhecer uma investigação que não ceda às tentações do simplismo. Investigar a opinião pública implica, pois, um olhar científico e um rigor metodológico capazes, entre outras necessidades, de dar conta das variáveis que envolvem os objetos pesquisados: seres humanos.

Nesse sentido, é fundamental partir do pressuposto de que o homem não tem total consciência acerca daquilo que pensa e que conduz suas práticas sociais e juízos do real. Nessa perspectiva, pesquisas meramente quantitativas tendem à ingenuidade de fundamentar suas conclusões em uma objetividade que não encontra respaldo no objeto pesquisado.

Com o intuito de facilitar a ilustração do que propomos, ignoraremos, pelo menos neste momento, a possibilidade de um entrevistado em uma pesquisa de opinião querer, deliberadamente, falsear suas respostas. Trabalharemos aqui com a hipótese exclusiva de que o desejo de colaboração está na base da relação entre entrevistado e entrevistador, o que sabidamente pode ser questionado.

Pois bem, imaginemos agora uma situação hipotética de avaliação do objeto X, em que os entrevistados devem conceituar X como muito bom, bom, regular, ruim ou péssimo. Em seguida, os entrevistados tecem comentários acerca de X. De maneira geral, é possível observar, por uma análise que leve em conta os indícios discursivos presentes nos comentários analisados, visíveis paradoxos entre avaliação e os comentários sobre X, o que nos leva a importantes conclusões:

  • O público não tem domínio consciente e objetivo sobre o processamento de suas opiniões, de tal maneira que se pode assegurar a existência de um abismo entre o que se pensa e o que se diz que se pensa.
  • As verdades construídas pelo público não nascem propriamente de suas percepções objetivas acerca da realidade; fundam-se, sobretudo, na reprodução de ecos sociais que se cristalizam no imaginário coletivo e constroem o real a partir do discurso – e não o contrário, como comumente se supõe. Assim, o real se materializa muito mais como uma experiência de discurso do que como uma vivência direta/objetiva.

A partir dessas duas brevíssimas conclusões, apontam-se eixos fundamentais para nortear as pesquisas sobre a opinião pública:

  • O conhecimento da opinião pública precisa ir além do que o homem diz que pensa; é necessário que se busquem na linguagem – matéria-prima do discurso – elementos indiciais capazes de revelar valores e simbologias que, sendo subjacentes à opinião, direcionam-na sorrateira e eficazmente.
  • Ações objetivas, sentidas no dia a dia das práticas sociais são, de certo, fundamentais para fortalecer e consolidar o argumento discursivo. Os mecanismos de controle da opinião pública – seja para ratificá-la ou para alterá-la – não prescindem, no entanto, da construção e do monitoramento de uma rede de discursos produtores da simbologia que se deseja levar a público como o real.

Dessa forma, parece-nos cristalina a importância da Análise do Discurso como ferramenta para o efetivo conhecimento da opinião pública, bem como das matrizes de sua formação, sem o que a definição de estratégias de comunicação com os públicos estará carente de referências norteadoras.

Patrícia Corado

Professora do Instituto Federal Fluminense.

Doutora em Língua Portuguesa (UERJ).

Pós-doutorado em Língua, Discurso e Ideologia.