A crise de imagem da saúde pública no Brasil – Wladimir Gramacho

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A crise de imagem da saúde pública no Brasil

Em junho de 2013, o Brasil vivenciou eventos singulares com as manifestações ocorridas logo após a Copa das Confederações. Em que pesem as características difusas e a pluralidade de demandas, ficou notabilizado o descontentamento em relação à qualidade da prestação de alguns serviços públicos, tais como saúde e educação.

A insatisfação da opinião pública brasileira com a qualidade dos serviços públicos de saúde, contudo, já era notória. Institutos de pesquisa como Ibope e Datafolha perguntam frequentemente em suas sondagens qual o principal problema do país. A partir de 2009, os brasileiros reportam que a saúde tornou-se o principal problema, superando outros como o desemprego e a inflação, que antes ocupavam o topo dessa lista. Só recentemente a saúde viu-se superada pela corrupção como principal problema nacional, em decorrência da operação “lava-jato”.

Pesquisa contratada Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM) e realizada pelo Ibope, inovou ao tentar discriminar os juízos dos brasileiros sobre os serviços públicos e privados de saúde, a partir da experiência direta que têm com esses atendimentos e também a partir da imagem social, estabelecida principalmente pela agenda midiática.

O trabalho de campo aqui relatado foi realizado entre os dias 22 e 27 de março de 2014, a partir de uma amostra representativa da população brasileira, em que foram entrevistados 2002 indivíduos, com entrevistas distribuídas proporcionalmente conforme o número de moradores de cada cidade.

Usando uma escala de avaliação de 0 a 10, os entrevistados deram uma nota média para a saúde pública (3,9) inferior à dada ao serviço privado (6,0). Entretanto, é importante ressaltar que as avaliações representam notas dadas por indivíduos com diferentes níveis de familiaridade com os serviços públicos e privados. Por exemplo, o serviço público de saúde foi avaliado tanto por indivíduos que utilizam o serviço quanto por outros que não o fazem. A mesma circunstância afeta a avaliação feita dos serviços privados de saúde.

Quando se considera o nível de familiaridade dos indivíduos com o serviço prestado, contudo, o resultado é bastante distinto. O serviço privado de saúde tem média 6,0 tanto para aqueles usuários da saúde pública (que formam seu juízo baseados fortemente em representações midiáticas) como para aqueles que têm experiência direta com o serviço prestado. Já o serviço público de saúde tem média 3,4 para os usuários da saúde privada (que também formam essa opinião baseados em representações midiáticas) e média 4,7 para os brasileiros que têm experiência direta com esse serviço.

Os resultados, portanto, suportam o sentimento comum de que a saúde pública no Brasil é pior que a privada: 4,7 x 6,0, em notas atribuídas pelos usuários de cada serviço. Entretanto, os dados também sugerem que, enquanto a imagem dos serviços privados está corretamente associada à sua qualidade, o sistema público sofre de uma crise de imagem que a torna pior que o serviço efetivamente recebido por seus usuários.

 

Wladimir Gramacho

Cientista Político e Jornalista.

Ex-Assessor Chefe de Pesquisa de Opinião Pública da Presidência da República.

Professor, Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.

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