O tempo e a tecnologia não envelhecem tudo – Fábio Gomes

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O tempo e a tecnologia não envelhecem tudo

Algumas coisas não caducam com o tempo. Para uma geração acostumada com o que se descarta por uma nova versão, o que é perene parece estranho. A solidez de alguns conceitos, pensamentos, formatos, produtos consagra heroísmos, os que vencem o tempo! Uma constatação interessante dessas afirmações é encontrada na contabilidade. O Método das Partidas Dobradas, descrito em 1494 por Luca Pacioli,  monge franciscano e matemático italiano, é a base de avaliações contábeis até os dias de hoje. O tempo e a tecnologia aperfeiçoaram as aplicações do método, mas a essência permanece. O Método das Partidas Dobradas não foi vencido pelo tempo; não caducou com a revolução tecnológica.

A toda semana, alguma matéria ou artigo jornalístico retrata o tema da revolução promovida com o advento das redes sociais. Muitos argumentam que as redes sociais tornaram visíveis novas características comportamentais, as quais impuseram transformações substantivas nas formas de relacionamento com os públicos. Não tenho dúvidas de que o comportamento das pessoas na Internet promoveu mutações superlativas nos variados segmentos da economia. A relação com a publicidade é exemplar dessa constatação. Análise do The Wall Street Journal indica que o gasto global de empresas com publicidade digital cresceu 10 vezes nos últimos 15 anos. A forma de acessar a Internet vem mudando com os anos também. Conforme o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o celular é a principal forma de acesso à Internet para os internautas brasileiros (58% da população).  Como não chamar de revolução o fato de que o número de celulares no Brasil é 35% maior que o número de habitantes? Mas a tecnologia transformou ou apenas potencializou características comportamentais?

Sim, Mark Zuckerberg criou o Facebook.  Mas não inventou a alteridade, não concebeu o hedonismo, nem tampouco arquitetou o interesse das pessoas pela vida alheia, nem o desejo de autoexposição. Conceito precioso para a análise de comportamentos sociais, a alteridade é um dos mais impactados pelas redes sociais. A alteridade retrata a formação do “eu-individual” pela interação com o “outro”, a construção da identidade a partir do olhar do “outro”. Nessa perspectiva, o modo como um indivíduo elabora suas interpretações sobre o cotidiano é impactado tanto pela avaliação que ele faz do comportamento e pensamento dos outros, como também, e em grande medida, pelas supostas avaliações que os olhares alheios farão sobre ele, indivíduo, o qual se reconhece como tal no pertencimento ao grupo. Assim, a opinião se configura como um fenômeno essencialmente social.  A interação social define formação de opiniões, desejos, aspirações, sentimentos, razões.  A alteridade sempre existiu, certamente é muito anterior a Zuckerberg, mas nunca foi ativada com tanta velocidade como nos tempos de redes sociais.  A tecnologia acelerou interações, potencializou alteridades. Grande efeito para as ações de comunicação, o impacto no paradigma reinante do monólogo publicitário mexeu com o status quo. Agora, a dialogia publicitária é condição necessária para a comunicação com os públicos.  Isso sim, graças às redes sociais de interação.

O mundo não será como antes.  Nunca se usou tanto o Método das Partidas Dobradas.  Também nunca se interagiu tanto.  Mas não podemos afirmar que é novo o que apenas ficou mais intenso.

Fábio Gomes

Especializado em Opinião Pública e Comunicação.

Diretor-presidente do Instituto Informa de Pesquisa.

Sociólogo (UFJF), mestre em Gestão Empresarial (FGV), especialista em Comunicação (ECA-USP).