Quem come inovação? – Thelma Lucchese Cheung

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Quem come inovação?

Em ambientes de competição o investimento em inovação é, comumente, citado como alternativa para que as empresas se mantenham no mercado e obtenham vantagens competitivas. Porém, especificamente para o caso da indústria alimentícia, muitas das inovações em produto e em processo não são aceitas pelos consumidores. Talvez, seja por isso que, quando comparado a outros setores, as aplicações de recursos em processos de inovação das indústrias de alimentos brasileiras são menos representativas. Pensando nisso, o que se propõe neste texto é olhar para o que vem sendo oferecido no varejo como inovação e fazer algumas observações.

É certo que as mudanças dos hábitos alimentares das populações, que tem o tempo como sua principal restrição ao consumo, provocaram alterações na demanda. O aumento da procura por alimentos que não exigem dedicação no preparo, por produtos prontos para o consumo, por alimentos processados e transformados poderia justificar as escolhas pelas inovações que garantem conveniência. Além disso, não se pode deixar de citar o aumento da oferta de alimentos que sofreram modificações em suas composições originais, reduzindo-se ou acrescentando-se alguns ingredientes, por exemplo o corte de açúcar, sódio e gordura em uns e o enriquecimento com vitaminas e sais minerais em outros. Essas inovações representariam as demandas de grupos mais preocupados com sua saúde e bem-estar. Por outro lado, a oferta de alimentos ricos em sabor e promotores de palatabilidade e o oferecimento de produtos que inovam em controle de qualidade dos alimentos supririam, respectivamente, as buscas por hedonismo e confiabilidade.

Em todos os exemplos citados, atitudes positivas em relação às inovações explicam as escolhas dos consumidores. Quando questionamos as pessoas sobre esses consumos, de modo geral, as explicações são muito relacionadas à facilidade que os mesmos têm em atribuir alguma familiaridade ao que é oferecido como “novo para o mercado”. Mas, e em relação à afirmação que foi realizada no início desse texto sobre a dificuldade porque passam as indústrias de alimentos, uma vez que muitas das inovações não são aceitas pelos consumidores? Pode-se afirmar que, em se tradando de inovação em alimentos, as principais rejeições ao consumo são explicadas pela dificuldade em reconhecer naquilo que será ingerido algo de familiar. Não podemos esquecer que para serem consumidos os alimentos devem ser ingeridos, incorporados.

Sendo assim, os efeitos dessa incorporação para o consumidor devem ser considerados, pois afetam a aceitação em provar. Colocar para dentro do corpo o desconhecido provoca ansiedade, dúvidas e desconfiança. Não é por acaso que o produto de inovações menos conhecidas pelos consumidores, como irradiações nos alimentos, clonagem, alimentos transgênicos e investimentos em nanotecnologia, é, de modo geral, melhor interpretado como ameaça àquele que consome do que como algo que seja favorável ao mesmo. Sabendo-se disso, se considerarmos as inovações como oportunidades de reposicionamento para as indústrias do setor de alimentos, o que se sugere é uma investigação mais aprofundada em relação às motivações ao consumo manifestadas pelos consumidores, às maneiras de perceber as transformações nos alimentos e à dificuldade em atribuir familiaridade ao desconhecido.

 

Professora Dra. Thelma Lucchese Cheung

Programa de Pós-Graduação em Administração – ESAN/UFMS.

Graduação em Administração pela UFMS.

Mestrado e doutorado em Engenharia de Produção pela UFSCar.

Doutorado pela Université de Nantes/França.