Respostas nas urnas a tudo que governos e políticos comunicam – Fábio Gomes

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Respostas nas urnas a tudo que governos e políticos comunicam

Não se falou em outra coisa nos últimos dias. O número de abstenções nas urnas foi recorde em todo o Brasil. Embora a média de abstenções sempre tenha sido alta – raramente menor que 15% (nem sabemos se esses eleitores de fato existem)-, em 2016 o índice assustou. O eleitor está desinteressado!

O ano eleitoral de 2016 foi atípico em vários sentidos. O primeiro se refere ao comportamento do eleitor. Ainda com rescaldos de 2013, somando efeitos da recessão econômica, o eleitor iniciou o ano muito mal-humorado. Os governos de FHC e Lula, cada qual com sua contribuição, oportunizaram à população o acesso a novos hábitos de consumo. O eleitor mais humilde, com possibilidade de crédito, experimentou o atendimento por pessoas motivadas e bem treinadas do comércio e produziu o ambiente residencial com equipamentos que sabiam existir apenas nas casas dos abastados. Novos hábitos, novas percepções. Uma vez que a realidade do contexto social sensibiliza a interpretação que o eleitor faz, os contrastes entre o que se tinha do portão para dentro e o que se observava do portão para fora eram gritantes. A qualidade no atendimento dos equipamentos públicos passou a ser contrastada com as experiências com o tratamento das empresas de varejo. Os locais de atendimento público, antes considerados melhores que a própria casa, agora eram percebidos como muito piores. Os contrastes observados, somados ao superlativo conteúdo de escândalos envolvendo caciques governamentais, promoveram interpretações icônicas: se até o trabalhador consegue qualidade para a própria vida com recursos limitados, como pode o governo não conseguir qualidade para seus serviços? A resposta dada pelo cidadão comum é um hiperônimo que, na voz popular, traduz todos os problemas do país: “CORRUPÇÃO”. O ano de 2013, com suas manifestações multitemáticas, é simbolicamente a expressão mais viva de que o eleitor deseja um outro fazer na política.

Outro aspecto de um ano eleitoral atípico é consequência do aspecto anteriormente mencionado. O eleitor iniciou o ano disposto a rejeitar o mundo político. Governos mal avaliados e ausência de candidatos com forte expressão de votos. Terra arrasada sem herói, a política, há muito acusada pelos mais diversos males, passou à condição irrevogável de condenada sem direito à piedade. Em muitos municípios, a desvinculação simbólica entre a macropolítica nacional e as candidaturas locais, potencializada por especificidades de cada caso, permitiu que a cena fosse paulatinamente ajustada. Muitos candidatos foram eleitos com generosos índices de votos. Mas as abstenções altas, mesmo nessas ilhas de exceção, estiveram presentes expressivamente.

Terceiro fator, potencializado pelos efeitos dos demais, a falta de recursos para as campanhas reduziu a voz dos postulantes. A reputação em baixa, a pré-disposição para rejeitar e as dificuldades para comunicar produziram cenas lamentáveis nas campanhas: a disputa pautada mais nas agressões do que nas proposições, shows de horrores.

Tempos de reflexão e planejamento de gestos e verbos na política. Os novos governos precisam estar atentos às querências da população e ao diálogo. Tudo o que comunica, da publicidade aos serviços de qualidade, forma a semântica dos governos requeridos. E para os que enfrentarão as urnas em 2018, o ensaio foi feito. O tempo de ajustes aos novos tempos é agora. E não se poderá reclamar de surpresas. O recado foi bem dado.

Fábio Gomes

Especializado em Opinião Pública e Comunicação.

Diretor-presidente do Instituto Informa de Pesquisa.

Sociólogo (UFJF), mestre em Gestão Empresarial (FGV), especialista em Comunicação (ECA-USP).