Uma hipótese sobre as diferenças entre as pesquisas e os resultados das urnas
As diferenças entre os resultados das urnas e as projeções das pesquisas eleitorais voltaram ao centro do debate público. Não escrevo em defesa da categoria, tampouco a represento. Mas, depois de 30 anos de andanças pelo Brasil, realizando pesquisas e procurando compreender o comportamento dos eleitores, talvez tenhamos alguma contribuição a oferecer.
As pesquisas eleitorais são instrumentos científicos que já demonstraram sua eficácia em inúmeras oportunidades. Isso não significa que estejam livres de imprecisões, tampouco que os métodos utilizados não devam ser permanentemente questionados e aperfeiçoados.
Uma questão acompanha meu pensamento desde as eleições de 2018. Naquele ano, lancei uma hipótese que considero pertinente recuperar diante dos resultados eleitorais recentes: há uma parcela expressiva do eleitorado brasileiro que não se manifesta nas pesquisas eleitorais.
Não me refiro aos eleitores indecisos, tampouco àqueles que escondem suas preferências quando entrevistados. Refiro-me a um segmento que, por diferentes razões, simplesmente se recusa a participar das pesquisas.
Vejamos uma questão.
Quando observamos as pesquisas realizadas às vésperas das eleições, especialmente aquelas produzidas por institutos com reconhecida trajetória, encontramos situações em que as intenções de voto de determinadas candidaturas se aproximaram dos resultados das urnas. Entretanto, em algumas disputas, sobretudo no cenário nacional e nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, candidaturas vinculadas ao PL e ao campo bolsonarista apresentaram votações superiores às estimativas publicadas.
O que poderia explicar esse fenômeno?
Minha hipótese é que uma parcela do eleitorado de direita, especialmente aquela mais identificada com o bolsonarismo, não esteja sendo adequadamente alcançada pelas pesquisas eleitorais.
Para desenvolver essa reflexão, podemos considerar, de maneira simplificada, dois segmentos no campo da direita brasileira: uma direita pragmática, cujas escolhas são orientadas por diferentes interesses e circunstâncias políticas, e uma direita mais fortemente identificada com o movimento bolsonarista.
É possível que, nesse segundo segmento, exista uma parcela de eleitores que tenha desenvolvido uma relação de desconfiança com as pesquisas eleitorais e, por consequência, se recuse a responder às entrevistas.
Se essa hipótese estiver correta, estamos diante de um problema metodológico importante.
Imaginemos que, em determinado estado, um segmento eleitoral representativo, equivalente a 15% do eleitorado, apresente taxas elevadas de recusa às entrevistas. Se essa recusa estiver associada a uma preferência política específica e não for adequadamente compensada pelos procedimentos amostrais, as projeções poderão apresentar distorções relevantes.
É importante compreender que esses eleitores continuam fazendo parte do universo pesquisado. Entretanto, deixam de estar representados adequadamente na amostra efetivamente entrevistada.
Uma comparação ajuda a compreender o problema. Imaginemos que as mulheres, por alguma razão, decidissem não responder às pesquisas eleitorais. Poderíamos realizar milhares de entrevistas, respeitar diferentes critérios de distribuição geográfica e produzir tabelas estatisticamente sofisticadas. Ainda assim, teríamos um problema incontornável: uma parcela fundamental da população eleitoral estaria ausente dos resultados.
O tamanho da amostra, por si só, não resolveria a questão.
Evidentemente, a hipótese que apresento não pressupõe que todos os eleitores bolsonaristas tenham esse comportamento, nem que a recusa às entrevistas seja exclusividade desse campo político. O ponto central é outro: se a disposição para responder a uma pesquisa estiver associada à preferência eleitoral, os mecanismos tradicionais de seleção e ponderação podem não ser suficientes para corrigir os resultados.
Recentemente, ouvi de uma importante liderança do PL uma afirmação que chamou minha atenção: “Os nossos eleitores sabem lidar com pesquisa”.
A frase admite diferentes interpretações. Entretanto, diante da hipótese que venho sustentando, ela ganha um significado particular. É possível que parte desse eleitorado tenha desenvolvido uma postura deliberada de não participação nas entrevistas eleitorais.
Não tomo essa declaração como evidência científica. Mas ela constitui um elemento que merece ser considerado na formulação de novas investigações.
A questão exige que avancemos para além das explicações habituais sobre margem de erro, mudanças de última hora na decisão do voto e dificuldades de identificação dos eleitores que efetivamente comparecerão às urnas.
Esses fatores existem e precisam ser considerados. Entretanto, talvez estejamos diante de um fenômeno comportamental que afeta a própria composição das amostras.
As pesquisas eleitorais trabalham com o pressuposto de que os entrevistados, observados os procedimentos metodológicos, possam representar adequadamente o universo de eleitores. Quando determinados segmentos apresentam maior resistência à participação, esse pressuposto precisa ser examinado com maior atenção.
Isso nos conduz a uma questão que considero central: quem são os eleitores que não respondem às pesquisas eleitorais?
Conhecemos razoavelmente bem o perfil daqueles que aceitam participar das entrevistas. Sabemos menos sobre os que recusam. E, eventualmente, pode estar justamente nesse eleitorado ausente uma parte importante da explicação para as diferenças entre as pesquisas e os resultados das urnas.
A investigação dessa hipótese exige estudos específicos sobre as recusas, seus padrões geográficos, características sociodemográficas e possíveis associações com atitudes políticas. Exige, sobretudo, reconhecer que o comportamento de não responder também constitui um fenômeno social que merece ser investigado.
Não tenho, neste momento, evidências suficientes para afirmar que essa seja a explicação das diferenças observadas. Trata-se de uma hipótese que precisa ser submetida à investigação científica. Outros pesquisadores poderão confirmá-la, refutá-la ou encontrar explicações mais consistentes.
Mas sigo considerando essa possibilidade bastante relevante.
Depois de três décadas realizando pesquisas, aprendi que compreender o comportamento eleitoral exige observar não apenas aquilo que os eleitores dizem, mas também as circunstâncias em que se manifestam, silenciam ou se recusam a participar.
Talvez uma parte das respostas que procuramos sobre as pesquisas eleitorais esteja justamente entre aqueles que não conseguimos entrevistar.
Fábio Gomes
Sociólogo
Mestre em Administração
Doutor em Comunicação